A dignidade na derradeira página do livro da vida

?Os médicos devem ficar até ao fim?. O Centro Hospitalar da Cova da Beira está na vanguarda dos cuidados paliativos. O Dr. Daniel Serrão cedeu ao JF um texto sobre a importância dos cuidados paliativos na medicina moderna.
O SILÊNCIO não tem que ser condoído, não tem que ser mudo, perdido em sinónimos. Nos passos, nos corredores, este silêncio não obscurantista, justifica-se apenas como fonte de mistério, tal como a vida. Folheiam-se, até ao fim, as páginas do grande livro da existência. O epílogo, esse, esenha-se como fronteira tangível, mas inultrapassável pelo incessante fulgor humano. A cordilheira da mortalidade é cada vez mais empurrada para fora dos limites tidos
como naturais década após década. A esperança de vida aumenta, mas ela persiste e persistirá em não nos conceder jamais a presença constante daqueles que se amam sempre
junto de nós. Aí é a dor, não física, mas a dor da alma que consome os dias e o antídoto para essa é dos mais difíceis de se encontrar.
O Serviço de Cuidados Paliativos do Centro Hospitalar da Cova da Beira, a funcionar no Hospital do Fundão, é ciência médica ? claro ? e é o acompanhar na infusão de dignidade para aqueles para a quem, humanamente, já é impossível inverter a ordem natural, a mesma ordem natural que nos une todos no mesmo destino, no encer-rar do nosso grande livro da vida. Um epílogo que não tem ? não deve ? que ser doloroso nem indigno. Na vida, como na morte.
Os dias correm na sua desenvoltura, e este serviço carrega consigo, ano após ano, responsabilidades para muitos ainda desconhecidas. Lourenço Marques, director do Serviço de
Cuidados Paliativos explica que ?os cuidados paliativos são uma assistência que se aplica nas situações de doença grave, em que a vida está em perigo e que promovem o alívio do sofrimento. E, nesse sentido, a dignidade humana é algo que tem que estar sempre presente em toda a medicina e que devido às situações em que a doença chega a situações de limite de vida, de facto a dignidade talvez tenha uma importância acrescida, embora seja difícil graduar
estes conceitos de dignidade?.
Talvez o seja de facto. Mas a fragilidade humana, apesar dos espantosos avanços da medicina, requer, neste capítulo, acrescidas sensibilidades e tratos, não apenas com o doente,
mas também no capítulo da interacção com a família. Tratam-se de situações na fronteira de densas emoções, sempre presentes, que cabe aos clínicos também saber lidar. Apesar desta realidade incontornável, diz Lourenço Marques ?os cuidados paliativos têm ainda uma aplicação relativamente escassa, por um lado, porque os recursos são ainda poucos e ainda não há uma organização suficiente para que os cuidados paliativos em Portugal sejam uma assistência acessível a todas as pessoas?.
A região foi pioneira na prestação deste serviço, que ainda não terá a expressão desejável a nível nacional. Ao Fundão chegam doentes encaminhados de vários pontos do país, sempre em consonância com médicos e familiares. A organização dos Cuidados Paliativos permite visitas durante todo o dia e a permanência nocturna de familiares, tendo uma disponibilidade de dez camas, um gabinete de consulta/biblioteca e reuniões, sala de actividades dos doentes, gabinete de enfermagem, gabinete de tratamentos, copa com acesso aos familiares e sala de espera. ?Cuidados paliativos são cuidados de qualidade, rigorosos, utilizando os medicamentos de forma rigorosa, com ciência. Tudo o que fazemos é, claramente e assumidamente, pelas regras da medicina. Ciência e arte. Ciência com rigor e arte na sua aplicação?. A ideia de que este serviço é o fim da linha em termos médicos, quando nada já há a fazer é ?uma ideia
errada, um mito?, considera o director do serviço. ?É possível no fim da vida ter momentos de qualidade. A vida pode ter todo o sentido até ao fim, com qualidade, o que significa também livre de sintomas, tratamentos dignos e humanos. Mas repito: essa ideia é um mito, que depois pode ser utilizado para criar uma área menor, economicamente menos exigente, com profissionais em que haja menos exigência. Isso é contrário a tudo. Os médicos têm que estar
presentes até ao fim e têm uma intervenção concreta e apropriada até ao fim. Têm essa responsabilidade ética, é da sua profissão?, sustenta.
Lourenço Marques não sente que este serviço esteja para além da capacidade da medicina.
?Eu não sinto isso. O que eu sinto é que o médico tem que estar presente até ao fim e o homem tem que aceitar os limites da medicina curativa, porque, senão, não se morria.
Estaríamos num mundo impossível?.
E é no mundo dos possíveis que dois médicos, 11 enfermeiros, um assistente social, duas psicólogas, um fisioterapeuta, um dietista, nove auxiliares de acção médica, voluntários, administrativos e um capelão percorrem estes corredores com intensidade e presença variáveis. Mas em todos presente uma preocupação fixa. Todos a puxar pelos ténues fios da vida.
O silêncio, esse, é presença assídua. Pelos corredores vinca-se o tempo que caminha pelos infortúnios. A sua passagem é indelével aqui, como lá fora. O que se sente não é impotência
perante as fatalidades e as inexorabilidades inerentes à própria existência. Não é espaço próprio de lamentos. A medicina tudo fez e faz para travar o avanço das doenças. Renova-se em busca de novas soluções que prolonguem a vida humana, que consigam, cada vez mais, lidar eficazmente com as maleitas do corpo. Mas nada é implacável a não ser o tempo na sua passagem, determinada e sem mágoas aparentes pelos destroços que deixa, refinados em
memórias. E é nesta sua caminhada que ele nos arrasta, que nos faz conviver com ele numa ínfima parte da sua existência. E nesse domínio há evoluções: ?Temos a Faculdade de
Ciências da Saúde na Covilhã desde 2001. Tem havido intervenção na parte do currículo relativamente às questões dos cuidados paliativos. Iniciou-se há alguns anos com o tratamento da dor crónica e com as questões da ética de fim de vida. Mas no ano passado avançou-se muito porque um módulo do primeiro ano passou a ter uma das unidades pedagógicas vocacionadas para os cuidados paliativos: a história dos cuidados paliativos e os conceitos gerais dos cuidados paliativos, com a passagem dos alunos ? em pequenos grupos ? pelo serviço e com avaliação em exame escrito. Este ano já tivemos essa experiência e foi muito
interessante. Os alunos demonstraram interesse por esta área, pela humanização, pelo foco de ter também presente que há medicina na fase avançada das doenças, quando não há cura.
Isto foi um avanço muito interessante?.
Mais reportagem sobre o assunto na edição semanal.
Por: Nuno Francisco

 

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