Elevada agressividade terapêutica em fim de vida para doentes oncológicos em Portugal

A qualidade de vida é uma das principais preocupações dos doentes com doença oncológica avançada. A literatura internacional demonstra que os doentes desejam evitar tratamentos excessivamente agressivos que comprometam a qualidade de vida no seu fim.

No entanto, a realidade portuguesa ainda está longe desse ideal, como demonstra o estudo publicado esta sexta-feira na revista ESMO Open da Sociedade Europeia de Oncologia Médica, que revela que Portugal apresenta uma elevada prevalência de agressividade terapêutica em fim de vida para doentes oncológicos, uma das maiores entre os países ocidentais (71 vs 22-65%)

Segundo este estudo, que incluiu mais de 92 mil doentes, 7 em cada 10 doentes oncológicos que morrem num hospital público em Portugal continental são expostos no último mês de vida a cuidados considerados excessivamente agressivos, como o internamento hospitalar por mais de 14 dias (43%) e a cirurgia (28%).

Como sabemos, apesar do crescimento do número de equipas de cuidados paliativos nos últimos anos, os recursos afetos a estes cuidados são escassos e têm cobertura geográfica assimétrica no nosso país, com uma taxa de acessibilidade de cerca de 30%, deixando muitos portugueses (cerca de 70%) sem possibilidade de recurso a cuidados paliativos.

Estes dados devem levar-nos a uma profunda reflexão que nos ajude a melhorar e personalizar os cuidados aos doentes oncológicos e geram dados sólidos para sustentar recomendações de políticas de saúde no sentido da redução da agressividade terapêutica em fim de vida do doente oncológico.

O aprofundamento da investigação nesta área é essencial para a identificação dos doentes e a melhoria dos cuidados uma vez que, nas palavras do autor principal do estudo, Dr. Diogo Martins Branco "os oncologistas devem procurar uma melhor determinação de estimativas prognósticas proporcionando oportunidades adequadas para discussão antecipada de preferências e expectativas dos doentes e familiares". O autor principal do estudo e coordenador da Comissão de Oncologia do Health Parliament Portugal acrescenta que esses dados devem ser integrados e conduzir a recomendações concretas, como as que foram propostas, bem acolhidas e integradas nos trabalhos parlamentares do terceiro plenário do Health Parliament Portugal.

Atendendo à magnitude destes dados torna-se essencial ter objetivos claros para implementação de políticas de melhoria dos cuidados nas instituições e a nível nacional.

O alargamento da cobertura nacional em Cuidados Paliativos é urgente e imprescindível para a nossa população, mas a integração precoce destes cuidados no percurso do doente oncológico é algo que tem provado na literatura internacional ser um fator de melhoria de qualidade de vida dos doentes, permitindo-lhes não só um melhor controlo sintomático, mas também uma melhor comunicação, gestão de expectativas e participação mais consciente e satisfatória nas decisões ao longo do seu percurso de doença. A integração de um paliativista nas equipas multidisciplinares de oncologia, assim como uma formação mais profunda dos oncologistas em Cuidados Paliativos devem ser recomendadas como forma de inverter a tendência para a agressividade dos cuidados em fim de vida e privilegiar uma medicina centrada no doente.

A inclusão de um indicador composto de agressividade terapêutica em fim de vida do doente oncológico na contratualização com os hospitais é uma das medidas sugeridas pelos autores e que pode ser de uma grande eficácia a curto prazo uma vez que assim podem ser traçados objetivos concretos de melhoria, aumentando não só a consciencialização dos profissionais para esta questão, mas principalmente o investimento das instituições na humanização dos cuidados e na melhoria dos recursos em Cuidados Paliativos.

Se o investimento na melhoria de recursos em Cuidados Paliativos é essencial, também é imprescindível que exista uma avaliação regular da atividade e desempenho destas equipas, permitindo uma melhoria continua.

O estudo apresentado pelo grupo de investigação do King's College London, liderado pela Doutora Bárbara Gomes, é um marco importante no conhecimento da realidade dos cuidados de fim de vida do doente oncológico em Portugal, chamando a atenção para a elevada agressividade terapêutica praticada no nosso país e deve levar-nos a uma profunda reflexão e a uma séria mudança de paradigma de acompanhamento do doente, através de uma medicina mais humanizada e centrada no doente e no seu contexto.


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