Testemunho de Albertina e Xico Capa

O Antes e o Depois....

 

Sou nora de um idoso de quase 96 anos de idade mas que aspirava viver até aos 100. Quase me influenciou nesse sentido.

 

Até aos 95 anos, o meu sogro era uma pessoa de quem eu tinha um certo orgulho. Era autónoma, lia os jornais e as revistas, contava-me as notícias da televisão, tinha um interesse exacerbado por tudo o que fosse futebol, mas com um carinho muito especial pelo seu Sporting. Em termos de atividades de vida diária, era praticamente independente, precisando de algumas pequenas ajudas no banho (por nós sermos um pouco exigentes), vestia-se de forma impecável. Enfim, era um idoso vaidoso! Eu falava dele com muito orgulho. Por outro lado, era respeitado por todas as pessoas, incluindo os novos e os velhos. Era muito estimado!

 

Padecia de um cancro, desde há sete anos (Linfoma Gástrico). Era grave, mas estava adormecido. Diziam os médicos que não sendo milagre parecia que era. Nós, a família, quase nos esquecíamos da existência de tal problema, apesar de ser seguido, com regularidade, nas consultas de Oncologia em Beja e fazer a medicação apropriada.

 

Tudo estava a correr tão bem, mas num domingo de manhã, no final do mês de novembro passado, o meu idoso começou a apresentar algumas dificuldades motoras e de compreensão. Na parte da tarde desse mesmo dia, cortou com o real. Deixou de andar, de nos conhecer, de dizer se tinha fome ou sede, se tinha vontade de ir à casa de banho, de saber onde estava, etc. A situação era tão complicada que não dormia nem deixava dormir. Gritava, gritava, gritava e falava coisas sem nexo.

 

Percebemos, de imediato, que o contexto era complexo. Além de procurarmos ajuda médica, tivemos de comprar cama hospitalar, cadeira de rodas e outros apetrechos inerentes à condição de uma pessoa acamada. O meu sogro nunca mais andou. Nem sequer ajudava na transição da cama para a cadeira ou vice-versa.

 

Sempre achei que o meu idoso tinha sofrido um AVC e disse-o aos médicos. Todos foram unânimes em afirmar que era uma demência grave (É certo que eu sabia que, apesar das competências atrás referidas, também compreendia que ele ia perdendo lentamente algumas das suas capacidades mentais). Interiorizei que era demência mas consciente de que a mesma era bastante grave!

 

Porque ele não dormia noites e dias consecutivos, fui obrigada a pedir ajuda médica. Foi-lhe prescrito um determinado medicamento. Não deu qualquer resultado. Voltava, por sugestão do médico, na semana seguinte e o panorama era o mesmo. Era-lhe prescrito novo medicamento e novamente me era recomendado que voltasse mais tarde para falar do sucesso/insucesso da nova terapia. Eu regressava depois de, por minha iniciativa, ir alterando os horários das tomas, na esperança de que o medicamento pudesse surtir efeito, durante a noite. Mas nada dava resultado! Nós continuávamos a passar noites seguidas sem dormirmos. Ele gritava ou porque estava cego, ou porque tinha sido operado, ou porque tinha partido um braço ou uma perna, ou porque o queriam matar, ou porque..., ou porque... Tínhamos muita pena dele! O que ele era e ao que tinha chegado!!!!

 

Tantas foram as noites deste último inverno em que eu e, muitas vezes, o meu marido não chegávamos a despir a roupa com que tínhamos andado durante todo o dia. Ele não nos dava descanso, atirava-se da cama tentando saltar as grades (chegou a cair e fazer traumatismo carniano). Muitas vezes, tinha de ser atado para sua própria segurança.

 

Nós confrontávamo-nos com este problema. Mas o problema era só nosso! Nós estávamos resignados: Aguentaríamos enquanto fossemos capazes! Um outro médico alterou a medicação: mas também foi em vão! Mais outra razão para nos resignarmos! Mas em mim pairava um grande desgosto! Era-me bastante comovente, quando me ia deitar e passava pelo seu quarto e ver aquele ser totalmente indefeso, de olhos abertos, sem dormir e a falar numa verborreia sem qualquer sentido! Tantas foram as noites que quando me deitava acordava o meu marido para lhe dizer simplesmente: QUE TRISTEZA AQUELA EM QUE O TEU PAI ESTÁ: CONTINUA SEM DORMIR! Mas nós não sabíamos o que fazer. Só pedíamos que ele não começasse a gritar, pois se o fizesse também nós não dormiríamos...

 

O meu sogro só dormia quando passava muitas noites e dias consecutivos, sem passar pelo sono. Depois, era capaz de dormir um dia e uma noite seguidos. Carregava baterias e partia para mais outra etapa de vigilância ininterrupta que podia ser gritando a plenos pulmões ou simplesmente a falar, centrado no seu mundo de antigamente.

 

Com tudo isto, a nossa capacidade de resignação era posta cada vez mais à prova. Quase nos convencemos que seríamos nós que estávamos predestinados a passar por este sofrimento. Para nós, até as coisas mais banais eram complicadas. Só para exemplificar, ao meu sogro, depois de ter passado por uma junta médica, foi-lhe negado o 2º nível do complemento de dependência que é dado a quem está acamado ou a quem sofre de demência, Por tudo o que tinha vindo a acontecer, é fácil concluir que achávamos que, para nós, tudo teria de ser muito, muito sofrido.

 

Felizmente, tudo se alterou. Mas já tinham passado seis meses, desde o início da nossa e da sua caminhada marcada por tanto sofrimento. Se bem se lembram, o meu doente sofria de uma doença oncológica e no dia 29 de maio veio à consulta de rotina. Veio de ambulância, expliquei-lhe onde vínhamos (sim porque, apesar dele não compreender muitas das coisas, eu falava tudo com ele, como sempre o tinha feito). Mas, nesse dia, ele estava totalmente desorientado: não sabia onde estava, nem deu qualquer tipo de atenção à médica por quem sempre tinha tido um carinho especial e ela também por ele. Então, a Drª Ana Montalvão disse-me de imediato que o ia referenciar para os Cuidados Paliativos. Para ser sincera, não disse nada mas pensei que eram mais outras pessoas que entravam em casa, davam ordens e depois ficava tudo na mesma. Calada ouvi as suas explicações e fiquei convencida de que até poderia ser tudo diferente, comparado com as experiências menos positivas que tinha vivido durante os últimos meses. Aceitei. Fiquei a aguardar a visita dos técnicos dessa Equipa. Não tardaram a chegar a minha casa (Drª Cristina Galvão e Enfermeira Catarina Pazes). O meu idoso não reagiu à sua presença, mas eu recebi instruções que me foram muito, mas mesmo muito importantes. É com um grande orgulho que para mim os problemas irresolúveis de não dormir e da agitação motora persistente ficaram resolvidos no espaço de uma semana. O meu sogro começou a dormir tranquilamente e a não ficar tão agitado durante os dias. Mas mais do que isso, ele estava vigilante durante o dia, conforme eu tinha sugerido. Isto conseguiu-se com medicação adequada, com telefonemas trocados entre as duas partes, com os reajustamentos necessários. Afinal, o que parecia impossível, no espaço de uma semana tornou-se possível.

 

Esta equipa – apesar de pequena em número de técnicos – é imensamente grande em sabedoria, em simpatia, em empenhamento, em dedicação, em amor ao próximo.

 

Com as suas competências, atuaram em todos os campos. O meu sogro não se sabia queixar de forma a que eu percebesse mas, de imediato, elas captaram-lhe um esgar de dor e atacaram logo nesse domínio. Foram fantásticas! Ao longo do tempo reajustaram a dose necessária para controlo da dor.

 

A sua disponibilidade foi de 24 sobre 24 horas, independente do dia da semana. Puseram-me tão à vontade que nunca me coibi de lhes telefonar e elas davam-me os seus conselhos seguidos sempre de uma explicação. Chegaram-me a dizer as razões dos picos de febre que o meu sogro apresentava, da prisão de ventre, etc.

 

Até no receituário prescrito, as facilidades eram enormes. Informavam o sítio onde o poderíamos levantar mas sempre de forma a que não nos causasse transtornos. Eram excecionais!

 

Um dia, telefonei-lhes mais para falar com elas, sem esperar que me fosse sugerido algo de especial. Conversa puxa conversa e (sem o esperar) fiquei a saber que o meu sogro estava mesmo na fase terminal. As suas diligências foram alteradas, ou seja, as conversas pelo telefone já não eram suficientes e partiram para o terreno, enviando uma enfermeira da Equipa dos Cuidados Continuados de Serpa (Enfermeira Paula Corro). Deslocou-se à minha casa, todos os dias até que o meu sogro faleceu!

 

Até nos preparativos para o funeral, estes técnicos foram brilhantes. Fizeram tudo por nós. O meu idoso faleceu na nossa casa, com todo o carinho e dignidade e a parte burocrática foi da responsabilidade desta equipa. Sentimo-nos sempre acompanhados: no antes do falecimento, no durante e até no após...

 

O meu idoso morreu. Eu sabia que ele não podia ser eterno. Mas morreu na altura em que estavam criadas as condições para que os cuidadores tivessem a vida mais facilitada. Foi pena que este preciosíssimo apoio só tivesse pecado por ser tão tardio. Tudo teria sido tão mais fácil, se os profissionais de saúde que tinham conhecimento do caso tivessem tido a humildade de descerem do seu pedestal e nos tivessem encaminhado para este serviço constituído por profissionais que fazem tão bem o que sabem fazer. Possuem um leque de conhecimentos tão vastos para a superação de problemas desta natureza. Pena é que ainda haja tanto desconhecimento sobre os serviços prestados e mais lamentável se torna quando esse desconhecimento ou fraco reconhecimento parte dos próprios profissionais de saúde...

 

Por muito que me custe dizer, não posso deixar de referir que, enquanto os profissionais de saúde, adotarem comportamentos tão preconceituosos que os impedem de trabalhar cooperativamente, muitos doentes e cuidadores poderão sofrer muito mais do que teriam de sofrer.

 

Perante a experiência de seis meses tão dolorosos e a tão curta experiência com a equipa dos Cuidados Paliativos, posso convictamente afirmar que se os anjos estão no Céu, eles estão certamente na Terra. Este grupo de Profissionais, Drª Ana Montalvão (que fez a referenciação), Drª Cristina Galvão e a Enfermeira Catarina Pazes (que orientaram todo o processo) e a Enfermeira Paula Corro (da Equipa dos Cuidados Continuados) que esteve no terreno diretamente, foram para mim os meus ANJOS DA GUARDA! Sem elas, o meu sogro não teria tido uma morte tão digna. Em meu nome e do meu marido, agradecemos-lhes do fundo do coração e comprometemo-nos a passar a mensagem, sobre a importância dos vossos serviços. Não se justifica (e é um crime moral) que doentes e cuidadores não possam ver o seu sofrimento minimizado, quando isso é possível! É desumano! Muito desumano!!!!

 

Finalmente, uma palavrinha muito especial para quem neste processo nos ajudou.

 

*Drª Ana Montalvão obrigada por sempre ter respeitado o meu sogro, tratando-o como se de um jovem se tratasse. Obrigada também por me ter colocado sempre a par da situação. Nesta fase final, foi a sua capacidade interventiva (apesar de não fazer diretamente parte da Equipa) que contribuiu para o correto encaminhamento do meu sogro;

 

*Drª Cristina Galvão e Enfermeira Catarina. Obrigada pelo vosso empenho, pela vossa competência, pelo vosso espírito de abertura, pela maneira como sempre me puseram à vontade, pelas chamadas que me devolviam quando a vossa rede era fraca, pela forma como terminavam os telefonemas: telefone sempre, telefone sempre, um beijinho! Nem calculam como o envio desse beijinho era tão importante. Só o pode compreender quem está no outro lado da linha, junto de um doente em profundo sofrimento e que a maior parte das vezes o próprio cuidador se questiona sobre se o que está a fazer é feito da forma mais correta. Esse beijo enviado a uma pessoa fragilizada ou até mesmo à beira da rotura, tem quase a mesma intensidade de um beijo dada ao vivo por duas pessoas profundamente enamoradas! Dá-nos força, coragem, vontade de ir à luta! Não calculam como é reconfortante! Continuem assim! Não imaginam a Vossa força, junto dos mais carenciados psicologicamente! Com esse comportamento contribuirão para atenuar o sofrimento dos doentes e dos seus cuidadores. Mas à Enfermeira Catarina, devo-lhe ainda mais um agradecimento, ou melhor dizendo, um pedido de desculpa, pois foi ela que eu mais incomodei, às vezes a horas menos convenientes. Agradeço-lhe imenso!

 

*À Enfermeira Paula Corro. Foi uma ótima profissional e do pouco tempo que com ela convivi, estabeleci uma forte relação de empatia. Sempre atenta, bem disposta, revelava muita consciência do que estava a fazer. Obrigada. Não nos esqueceremos do seu sorriso sempre tão amável!

 

A todos, mesmo a todos, um grande e sentido AGRADECIMENTO!!!

 

Albertina e Xico Capa
27-7-2015


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