Testemunho de Esposo de Doente internada na CSIdanha

VIDA
A Viagem Sem Retorno

 

Sempre que nasce uma criança e de seguida se ouvem os acordes daquele primeiro choro que tanta alegria dá aos pais, isso é o sinal de partida para a viagem que esse pequenino ser inicia nesse momento e que o levará a trilhar os caminhos deste nosso maravilhoso planeta azul.
Ao embarcar, a única certeza que lhe garantem é a de que o destino será o mesmo de todas as outras viagens que se dispersam e se cruzam em variadas direcções e a de que, independentemente da sua duração ou da classe em que se viaje, ela jamais irá ter percurso de retorno.
Se pensarmos que, na maioria dos casos, o último troço desta viagem é bastante conturbado, todos nós e, principalmente, quem comanda/gere as receitas provenientes das diversas portagens que vamos pagando, temos a obrigação de criar condições para que as paisagens, outrora verdejantes e coloridas, mas que vão ficando mais cinzentas à medida que se avança, continuem a transmitir a tranquilidade e o conforto necessários para suavizar a tristeza e a dor que se sente por a viagem estar a chegar ao fim.
A Isabel, minha mulher e companheira de viagem durante trinta e oito anos, terminou a sua viagem aos cinquenta e oito anos. Eu, que diariamente acompanhei o seu sofrimento, sobretudo nos últimos dois anos e meio e em especial nos cinco/seis meses finais, quero deixar aqui o meu testemunho do que foi esta última etapa da sua vida e o quão penosa ela foi.
Depois de inúmeras idas ao IPO: consultas, exames, urgências e internamentos, acamou de vez. A somar às horríveis dores que há muito a vinham massacrando, física e psiquicamente, vieram a incontinência urinária e fecal e a perda, primeiramente parcial, depois total, da locomoção.
O último internamento no IPO durou um mês e foi, porventura, a fase mais difícil de todo este percurso. Só eu e ela sabemos o que foi aquele mês de internamento. Porém, diga-se em abono da verdade que não foi pela falta de assistência ou de profissionalismo de noventa e nove por cento dos quadros que lá trabalham, muito fazem eles, atendendo às condições e ao números de profissionais existentes, mas sim pela enorme falta de resposta das estruturas, tanto em relação ao número cada vez maior dos doentes a necessitar deste tipo de acompanhamento, como em relação à falta de pessoal especializado ou pelo menos em exclusividade nesta área.
E porque já nada havia a fazer senão esperar o desenlace final, não faltaram as pressões psicológicas, quer sobre ela, quer sobre mim, feitas no sentido de lhe darem alta, para assim, penso eu e não encontro outra explicação, poderem poupar alguns cobres. Foi então que, revoltado por tudo o que nos estava a acontecer, porque é dever do Estado, a quem toda a vida pagamos os nossos impostos, criar em todos os hospitais, à semelhança do que já acontece em alguns, um serviço especializado em cuidados paliativos e desesperado porque sabia que em casa, por muito carinho que lhe pudesse dar, não tinha nem as condições nem os meios necessários para lhe proporcionar o fim digno a que todo o ser humano tem direito, resolvi transferi-la para os Cuidados Paliativos da Casa de Saúde da Idanha.
Em boa hora tomei tal decisão, mesmo sabendo que iria pagar os elevados custos da diária, enquanto não chegasse o compromisso de pagamento por parte da Direcção Regional de Saúde, onde estava inscrita, mas cuja lista de espera era de dois a três meses porque, segundo informação que me foi dada, haveria apenas dezasseis camas destinadas aos cuidados paliativos, subsidiadas pelo Estado, para a área da grande Lisboa. Eram oito na Idanha e oito em Bobadela. E isto em 2009. Optei, então, pela Idanha.
Confesso que, logo nos primeiros dias de internamento da Isabel na Idanha, me arrependi de não ter tomado mais cedo tal decisão. Ali tudo era diferente: as Instalações, a proporcionalidade doentes/técnicos e a sua especialização em matéria tão delicada eram a garantia de que os doentes em fase terminal não seriam tratados como mais um entre muitos e que não estariam sós.
A juntar a tudo isto um outro factor muito importante, quiçá, tão, ou mais, valioso como os anteriores, a possibilidade de os familiares poderem permanecer vinte e quatro horas junto deles, desempenha um papel importantíssimo em todo este processo, pois não há nada como um afago, um beijo, uma palavra, um simples olhar ou até a simples presença para mitigar a dor e a tristeza numa fase tão difícil como esta, e à qual, nunca nos devemos esquecer, nenhum de nós está imune.

 

È mais fácil subir a montanha
Quando alguém nos vem ajudar
São os trilhos agrestes da vida
Que ensinam o que é amar


E ao passar nos vales profundos
Ladeados de negros rochedos
È bom ter-se um ombro amigo
Para vencermos todos os medos


Dois meses depois a Isabel, tendo a seu lado o marido e os filhos, exalou tranquilamente o último sopro de vida.
Por tudo o que acabo de relatar, não posso deixar de prestar a minha homenagem e exprimir o meu sincero agradecimento a todos os que, independentemente de ser essa a sua profissão, diariamente põem à prova as suas emoções, muitas vezes, certamente, transportadas para além da sua vida profissional, para auxiliarem o seu semelhante.
Por isso:


Nunca desistam, vão em frente
Na cruzada do bem-fazer
Terão a gratidão de todos
Que, vós, não deixastes sofrer


E, finalmente, para exprimir tudo o que observei, vivi e senti durante este período tão difícil da minha vida, transcrevo alguns dos muitos versos que escrevi durante aquelas longas horas de silêncio e que são mais uma maneira de agradecer a todos quantos conseguem transformar o sofrimento em conforto.
Obrigado!

 

A FORÇA DE UM CARINHO

Sabem da missão impossível
Para inverter o caminho
Não desistem e vão à luta
Usando a força do carinho


Vigilantes, dia e noite
Ao espírito dão alento
Trocam a dor pelo conforto
No combate ao sofrimento


Às emoções vão buscar forças
Dão à vida outro valor
Fazem da ?ajuda ao próximo?
Uma bandeira de amor

 

Não correm por uma medalha
Nem os seus nomes se conhecem
Não são títulos nos jornais
Mas, nem por isso esmorecem


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