Testemunho de José António Pinho

Faz hoje um ano e poucos dias que sai do IPO no meu carro, atrás em ambulância seguia a minha esposa para o Fundão, para os cuidados paliativos, na minha mente, ELA ia para a antecâmara da morte.

Sabia que não iríamos voltar juntos a Coimbra.

 

Era noite de Natal de 2005, a família estava toda reunida, em Janeiro a Nandinha ia fazer 60 anos, ela decidiu fazer um check-up.

Resoluta como sempre foi ao hospital da Covilhã. Veio apreensiva, a médica tinha detectado um tumor no recto. Primeiros dias de Janeiro:

_ ? ZÉ tenho um cancro! ? Sentia-a tremer no meu peito, as suas lágrimas corriam pela minha face, eu, não sabia que fazer, ali estivemos agarrados um ao outro, o amor, a vontade de lutar e vencer tinha sido selada com um longo beijo de amor, tínhamos vencido o primeiro impacto.

Confiantes partimos para o IPO de Coimbra.

Foi tudo novo para nós. Foi um choque, ela nunca tinha estado doente. As salas de espera, pequenas para tanta gente, muitas caras tristes a contrastar com todo o pessoal do IPO, diligentes, atenciosos, amigos do doente.

Nunca falei muito, deixava minha mulher falar, mas ia ouvindo, ia lendo e sem ELA ver ia perguntando porque estavam ali ? e comecei a ganhar confiança.

Começou a quimio, depois a radioterapia, tudo parecia correr bem, o Vasco, principiou a acompanhar a mãe. A Nandinha não tinha receio de dar a conhecer a sua doença, o seu testemunho transmitia força, coragem, e uma vontade enorme de vencer, era necessário não ter medo da palavra cancro.

Tínhamos uma pequena empresa, eu tinha que continuar a trabalhar e, quem não soubesse, não notava nada.

A Nandinha, continuava linda, fazia as suas caminhadas com as amigas, fazia a sua vida normal ia ás compras. A vida tinha que continuar?

 

A operação foi um êxito, não ficou com o saco, foi um dia feliz para ELA, sorria.

Eu respirava de alívio, tinha valido a pena lutar, surgiu a alta e o caminho de regresso, tão bom que foi de fazer! Exames de rotina, um após outro, tudo parecia correr bem, ir a Coimbra tinha deixado de ser um pesadelo?

O telefone toca, minha mulher atendeu a sua expressão muda era do IPO:

- Não, eu não mereço isto, não é justo, não, não!...

Não sei quanto tempo estivemos abraçados. Chorei, de dor, de raiva? sentamo-nos no sofá, não sei quanto tempo ai estivemos, sem falar. Tinham aparecido três cancros no fígado. Começamos a enxugar as lágrimas um ao outro, e de repente levanta-se:

- Eu não desisto! Zé, vai trabalhar, eu não desisto, vamos lutar.

Saí de casa, perdido meti-me no carro, mas, não fui trabalhar, não fui capaz!

O mundo tinha desabado sobre mim. Sabia agora que o tipo de cancro da Nandinha estava no sangue, era saltitão.

Começou uma vida dupla, minha mulher, acreditou que podia vencer. Era o combate da sua vida. Eu, não acreditando acompanhei sempre o seu sonho, o seu querer.

Novamente quimio, radioterapia, as viagens a Coimbra de manhãzinha. Ela dormitava e eu lá ia com uma lágrima no olho, não podia chorar.

A operação ao fígado, foi um êxito, o fígado tinha ficado limpo e o baço tinha sido retirado.

A esperança tinha voltado a surgir no meu coração, mas a minha mente não acreditava.

Pelo contrário, minha mulher estava crente, se eu acreditava ou não, isso não tinha interesse, o que era importante, era ela acreditar.

Mais exames e surge um terrível, minha mulher nem reage, agora, estava novamente no fígado, nos pulmões e na coluna?

Um minuto bastou para a coragem voltasse e a luta recomeçasse -

O que é preciso fazer agora?

A doutora Margarida hesita, olha e vê esperança no seu olhar

- Deixe-me pensar bem ? vou ver, estou disposta a tudo diz minha mulher.

Mais uma viagem de regresso o carro já andava sozinho?

Sentia que se aproximava o fim! Queria chorar gritar:

- Hoje vais muito devagar! Minha mulher tinha estudado na escola campos Melo da Covilhã, eu, também.

Atónito, leio o que ela escrevera para a nossa revista:

A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente. Eu continuo a acreditar, eu vencerei!!!

Ele fixou residência no meu corpo, há cerca de dois anos e meio.

Aceitar o invasor foi doloroso, foi difícil mas a vida tinha que continuar olhando em frente, lutando. Eu tinha que aprender a conviver com ele para poder destrui-lo.

A quimioterapia, a radioterapia, a perda de peso foram períodos difíceis, mas o meu sorriso a minha determinação permaneciam. Eu acreditava que era possível.

A primeira cirurgia trazia-me a esperança de cura.

Passados oito meses eis que sou confrontada novamente com o invasor, agora no fígado. Mais quimioterapia, mais viagens a Coimbra, outra cirurgia, esta muito delicada. De novo a minha força, a minha coragem e minha fé em Deus eram postas à prova

Mais uma batalha a ser ganha. Não podia admitir outra possibilidade.

Tudo parecia correr bem. Só que agora, embora muito subtilmente ele volta a instalar-se no meu corpo procurando sítios diferentes.

É preciso expulsá-lo de novo?

A Deus, à minha família e aos meus amigos agradeço a força, o apoio e o carinho com que me rodeiam.

A todas as pessoas que neste momento convivem com esta doença só lhes quero dizer que lutem e acreditem.

Eu continuo a acreditar.

Eu vou vencer!

Fez questão de dar a revista à doutora Margarida,

-É uma mulher de armas.

A doutora Margarida fez sinal que queria falar comigo.

?Gostaria que estivesse preparado para uma coisa, é o último verão da sua senhora, o Natal é um ponto de interrogação.?

- Obrigado! Minha mulher era mais nova 6 anos que eu, saudável, amante da serra e da neve, do desporto, da ginástica, da aerobica. Nunca me tinha passado pela mente ficar viúvo. Tinha que esconder de todos esta realidade, ter forças para rir, trabalhar e poder acompanhar minha mulher. Era complicado, o xanax, de dia e de noite, ajudou.

A situação ia piorando a quimio não era possível, as dores cada vez maiores, os passeios com as amigas tinham terminado, mesmo, na nossa rua, eu e ela, também.

Mais exames, há que tomar decisões, a palavra paliativos é pela primeira vez proferida pela doutora Margarida que em caso de urgência fosse ao Fundão que ela falaria com o doutor Lourenço Marques.

A palavra paliativa para a Nandinha era um estigma.

Nós os dois nada dissemos, mas, ambos sabíamos aquilo que se dizia na Covilhã, _ ?quem vai para o Fundão é para morrer.?

A primeira ida ao Fundão foi na companhia de duas amigas, depois fomos os dois,

- Aqui não fico, eu não estou para morrer, eu não quero morrer!

Eu bem lhe dizia, que era só por causa das dores.

A Nandinha não quis ficar no Fundão.

Sabia que não era possível viver assim. Coloquei abertamente a situação ao IPO de Coimbra, a doutora Margarida, compreendeu e minha mulher voltou, entre a doente e a médica tinha sido criado um elo de amizade.

Em dez dias minha mulher compreendeu e aceitou.

Tomou a decisão de partir com serenidade. Eu, iria compreender o poder da Fé. Uma hora para mim era um dia. Nunca mais irei esquecer as palavras ditas pelo padre franciscano ? meu irmão cancro ? minha irmã morte ? as suas palavras ditas para minha mulher eram para mim a extrema-unção, feriram-me, tanto me magoaram, tinha vontade de fugir de chorar, mas ficava ao pé de quem eu amava e queria tão bem. Via-a indefesa acenando a cabeça, por vezes sorrindo? a minha vontade era tão diferente, era um homem sem fé, sem Deus, olhava à minha volta e todos o ouviam com atenção. O padre era alto e tinha um sotaque italiano. Quando, alguém estava com a minha mulher e o padre entrava, sorrateiramente eu saia.

Era já Outono a viagem de regresso, nessa noite do? meu irmão cancro, da minha irmã morte,? foi feita toda a chorar, tive que parar algumas vezes, nunca tinha chorado assim. A minha terra a Covilhã estava tão longe.

O dia de deixar Coimbra chegou. Tive a sorte de estar acompanhado

A Nandinha chegou ao Fundão, iria ali viver doze dias, sorrindo, agradeceu a quem a tinha trazido.

Eu nem queria acreditar, eu estava triste, ela parecia bem disposta, jantou e eu não tinha fome.

Os cuidados paliativos do Fundão que para mim eram a antecâmara da morte, mais pareciam um hotel de cinco estrelas. O seu pessoal calmo, discreto, eficiente inspirava confiança.

- D. Fernanda, a senhora vai passar o fim-de-semana a casa!

De manhã corri a comprar amores-perfeitos enchi o jardim da nossa casa, queria tê-lo bonito para Ela.

Porém as forças iam faltando rapidamente, já não pode ir passar o fim-de-semana a casa, já não viu os meus seus amores-perfeitos.

Sentada na cama, com os pés no chão disse-me:

-Zé, quero que saibas que és muito importante para mim!

-Eu sei Nandinha -. Trocamos os últimos beijos de amor.

Rapidamente deixou de poder engolir, de falar, a sua cara continuava linda, o seu rosto sereno.

- Senhor Pinho, são dez e meia da noite, o senhor já não pode fazer nada?

Dei-lhe um beijo ?

Passadas cinco horas, partiu. Penso e acredito que só partiu fisicamente.

 

Hoje por amor acredito em Deus, acredito que o seu espírito, alegre, brincalhão, resoluto, me acompanha.

Os primeiros meses foram terríveis, tinha medo de estar na minha própria casa.

Uma noite pensei que ia morrer de angústia, salvou-me uma voz amiga.

Seis meses demoraram para ganhar forças ir ver a sua campa.

Na sua lápide uma amiga escreveu:

?Á companheira de uma vida

À mulher força

Á mãe coragem

Á amiga

A ti que viveste a vida de pé

De pé como as arvores

Até sempre.? Tão confuso que andava, tanto me interrogava o porquê de nunca me ter dito que ia partir, de nunca me ter dito cuida dos filhos, cuida de ti.

A minha mente não me impediu de a 13 de Outubro ir a Fátima, não me impede de querer acreditar em Deus.

É por amor que desejo, quando partir, ir para ao pé dela.

Gostaria de em vida ver muitos cuidados paliativos como o do Fundão, implantados no meu país, dizer, que nos podemos orgulhar dos cuidados oncológicos e dos cuidados paliativos.

Com dor nos nossos corações, escrevemos um agradecimento público aos cuidados paliativos do fundão:

O som das suas gargalhadas, quebrou-se no silêncio da sua voz!

O sorriso doce e pacífico espreitava. Dando lugar a uma serenidade e tranquilidade comovente e contagiante.

A Nanda estava na Medicina Paliativa do Hospital do Fundão!

Ali abre-se a porta do coração de todos, os que lá trabalham, a todos os que lá entram.

Ali respira-se vida e não morte como se pensa ainda.

Ali estão todos ao serviço dos que precisam.

Ali sente-se afecto, paz, tranquilidade.

Ali cuida-se o corpo e a alma.

Ali parte-se com dignidade.

? Que importa a palavra paliativos, com o estigma que a mesma tem, se eu me sinto tão bem aqui?!?

Foram estas as últimas palavras da Nanda para quem a palavra paliativos foi em estigma durante algum tempo?

Bem-haja Sr. Dr. Lourenço Marques, Sr.ª Dr.ª Milu, Sr.ª Dr.ª Stela, Senhores enfermeiros Vasco, Dino, João, Manuela, Augusta, Sílvia, Filomena, Maria José, Celeste, Senhoras Auxiliares Conceição, Olga Raquel, Lurdes, São, Fátima e Isabel. Bem haja a quem no exercício da sua profissão com tanta competência e carinho, transformaram a morte em VIDA.

Covilhã, 18 de Novembro de 2009

 

Passou um ano, posso dizer o primeiro mês, foi horrível, pensava que ia morrer de angustia, à noite, sozinho em casa, tinha medo

Até a primavera chegar, as luzes tinham que estar acesas, as portas fechadas, luz do corredor sempre acesa, no meu quarto, além da companhia do xanax, rádio ligado, persianas abertas, para a luz da rua entrar, dormia poucas horas. Foram precisos 6 meses para poder ir ao cemitério. Quando se falava na Nandinha chorava,. Abri meu coração, falei com muitas pessoas que tinham passado pelo mesmo, não tive medo de falar e de ouvir, fazia-me muito bem.

O chorar foi bom, sentia orgulho de ter vivido 42 anos com uma mulher extraordinária, lutadora, que me tinha dado dois filhos

Hoje passado um ano, posso afirmar:

- Mais por amor que pela mente, ? mais ela que eu ? vencemos o cancro -. ?

Ela partiu com dignidade, não chorou, nunca baixou a cabeça, partiu com um sorriso, serena e linda. Sem ser poeta uma poesia para ela fiz:

Amar é sonhar

Passar da noite escura ao luar

Brincar com o sol e o mar

Sim! Sonhar é amar

Acordar ao som das flores

Brancas, vermelhas roseirais

Passarinhos a chilrear

O vento a namorar com o ar

E Tu meu amor

A acenar e sorrir

Tuas mãos se juntando

Para beijinhos me enviar

Não sei onde estás?

Mas sei que continuas sorrindo

Com a certeza de um dia

Nossas almas se voltarem a encontrar!?

 

Penso, que honrar a sua vida e a sua memória, exige de mim ser um homem tranquilo, um homem com força que quer ser feliz e que todos os dias luta por isso. Um dia de cada vez?

Tenho dois filhos para ajudar a viver a sua vida, tenho família e amigos.

 

Hoje, passado um ano, tudo é mais fácil para mim, por amor a quem partiu, fui a Fátima e rezei, passei a rezar todos os dias, sonho manter vivo toda uma vida de bons momentos, das lutas que travamos, dos perigos que passamos juntos, tenho Fé que quando eu partir irei para o sítio onde ela esteja e quero acreditar em Deus.

É muito bom acreditar em DEUS!

 

Covilhã, Novembro de 2009

 

José António Pinho


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